A Inteligência Artificial já faz parte da rotina de muitas empresas brasileiras. Ferramentas como assistentes generativos, plataformas de criação de conteúdo, análise de dados e automação vêm aumentando a produtividade das equipes e reduzindo o tempo gasto em diversas tarefas.
O problema começa quando essa tecnologia passa a ser utilizada sem qualquer controle da empresa.
Uma reportagem publicada pela Forbes Brasil chamou atenção para um cenário preocupante: segundo pesquisa da SAP em parceria com a Oxford Economics, 82% das organizações brasileiras pesquisadas possuem funcionários utilizando ferramentas de Inteligência Artificial de terceiros sem aprovação ou supervisão formal, ao menos ocasionalmente.
Esse fenômeno já possui um nome: Shadow AI.
O que é Shadow AI?
Shadow AI ocorre quando colaboradores utilizam ferramentas de Inteligência Artificial sem conhecimento, autorização ou controle da área responsável pela tecnologia da empresa.
Na prática, isso pode acontecer de maneira aparentemente inofensiva.
Um funcionário pode utilizar uma conta pessoal em uma ferramenta de IA para revisar um contrato, resumir uma planilha, elaborar uma proposta comercial, analisar informações financeiras ou até gerar um código para algum sistema interno.
O problema não está necessariamente no uso da Inteligência Artificial, mas sim nos dados que estão sendo enviados para plataformas externas e na ausência de governança sobre esse processo.
É uma situação semelhante ao conceito já conhecido de Shadow IT: tecnologias passam a fazer parte da operação sem que a área de TI saiba exatamente quais ferramentas estão sendo utilizadas, por quem e com quais informações.
Muitos usuários enxergam ferramentas de IA como simples mecanismos de pesquisa ou produtividade e acabam copiando para essas plataformas informações que jamais enviariam conscientemente para fora da empresa.
Entre os exemplos estão:
- dados de clientes;
- contratos;
- propostas comerciais;
- informações financeiras;
- planilhas internas;
- credenciais e configurações técnicas;
- códigos-fonte;
- documentos estratégicos;
- dados pessoais de funcionários;
- informações protegidas por acordos de confidencialidade.
A reportagem da Forbes mostra que o problema já produziu consequências concretas. Entre as empresas brasileiras pesquisadas, 43% relataram vazamento de dados ou exposição de propriedade intelectual associados ao uso dessas ferramentas, 32% apontaram vulnerabilidades de segurança e 31% mencionaram problemas relacionados a compliance.
Ou seja: não estamos mais falando apenas de um risco hipotético.
Durante muitos anos, as empresas construíram seus controles de segurança em torno de equipamentos, servidores, softwares instalados, usuários, licenças e acessos corporativos.
A Inteligência Artificial generativa criou um desafio diferente.
Grande parte dessas ferramentas funciona diretamente pelo navegador. Isso significa que um colaborador pode começar a utilizá-las em poucos minutos, muitas vezes sem instalação, sem abertura de chamado e sem conhecimento da equipe de TI.
Consequentemente, a empresa pode possuir firewall, antivírus, backup, monitoramento e diversas camadas de segurança e, ainda assim, informações estratégicas estarem sendo enviadas manualmente para plataformas externas.
É justamente por isso que a segurança da informação moderna precisa ir além da proteção de equipamentos.
Ela também precisa controlar identidade, acesso, dados e comportamento dos usuários.
Proibir Inteligência Artificial não resolve o problema
A primeira reação de algumas organizações pode ser simplesmente bloquear o acesso a essas ferramentas.
Mas essa abordagem, isoladamente, dificilmente é suficiente.
A própria reportagem destaca que políticas baseadas apenas na proibição encontram limitações. Usuários podem recorrer a equipamentos pessoais, celulares ou ferramentas alternativas para continuar utilizando IA.
Por isso, empresas precisam trabalhar com três elementos simultaneamente: tecnologia, processos e pessoas.
A utilização de Inteligência Artificial precisa deixar de ser uma iniciativa individual do colaborador e passar a fazer parte da estratégia tecnológica da organização.
O que as empresas deveriam fazer?
O primeiro passo é estabelecer uma Política Corporativa de Uso de Inteligência Artificial.
Ela deve deixar claro quais ferramentas são permitidas, que tipos de dados podem ou não ser utilizados e quais atividades precisam de autorização prévia.
Além disso, algumas medidas são fundamentais:
- disponibilizar ferramentas corporativas homologadas;
- utilizar contas empresariais em vez de contas pessoais;
- estabelecer políticas de classificação da informação;
- restringir o envio de dados confidenciais para plataformas públicas;
- controlar permissões e acessos;
- manter inventário das soluções de IA utilizadas;
- registrar e documentar automações e agentes;
- capacitar os colaboradores sobre segurança da informação;
- monitorar o ambiente corporativo;
- revisar contratos e políticas de tratamento de dados dos fornecedores.
A pesquisa apresentada pela Forbes também mostra que apenas 15% das empresas pesquisadas consideram seus processos totalmente preparados para governar Inteligência Artificial.
Existe, portanto, uma diferença significativa entre usar IA e estar preparado para usar IA com segurança.
IA também é uma questão de LGPD e compliance
Quando um funcionário envia dados pessoais, informações de clientes ou documentos internos para uma ferramenta externa, a empresa pode estar criando também um problema jurídico.
Dependendo das informações envolvidas, esse tratamento pode estar sujeito à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), contratos de confidencialidade e normas específicas do setor.
Além dos impactos regulatórios, um incidente pode gerar investigação, paralisação de atividades, retrabalho, perda de clientes e danos à reputação.
Segundo dado da IBM citado pela Forbes, o custo médio de uma violação de dados no Brasil chegou a R$ 7,19 milhões em 2025.
Por isso, governança de Inteligência Artificial precisa ser tratada como parte da estratégia de cibersegurança e continuidade do negócio.
Existe ainda um risco pouco discutido: dependência do funcionário
Imagine que um colaborador desenvolva diversos agentes, prompts e automações utilizando sua conta pessoal.
Depois de alguns meses, grande parte de sua produtividade passa a depender dessas ferramentas.
Se esse profissional deixar a empresa, podem desaparecer junto com ele os prompts, fluxos, integrações, bases de conhecimento e automações que sustentavam parte da operação.
A empresa pode acreditar que possui um processo automatizado quando, na realidade, possui apenas um conhecimento concentrado em determinada pessoa.
Por isso, automações corporativas também precisam possuir documentação, responsáveis, contas institucionais e controle de acesso.
A Inteligência Artificial deve pertencer ao processo da empresa, e não exclusivamente ao usuário que a criou.
O papel da TI mudou
Durante muito tempo, a principal preocupação da TI era garantir que computadores, servidores e sistemas permanecessem funcionando.
Hoje, isso não é mais suficiente.
A infraestrutura tecnológica precisa ser continuamente monitorada, os acessos precisam ser controlados, os dados protegidos e novas tecnologias precisam ser avaliadas antes de entrarem na operação.
A Inteligência Artificial reforça essa transformação.
O departamento de TI — interno ou terceirizado — precisa atuar cada vez mais como responsável pela governança tecnológica da empresa, identificando riscos antes que eles se transformem em incidentes.
É justamente nesse ponto que práticas como monitoramento contínuo, gestão de acessos, políticas de segurança, inventário de ativos, proteção de endpoints, backup e acompanhamento preventivo deixam de ser opcionais.
A questão não é mais se sua equipe utiliza IA
Provavelmente ela já utiliza.
A pergunta mais importante passou a ser:
Você sabe quais ferramentas seus colaboradores estão utilizando, quais informações estão colocando nelas e o que acontece com esses dados depois?
A Inteligência Artificial representa uma das maiores oportunidades de produtividade dos últimos anos, mas sua adoção precisa acontecer de maneira estruturada.
Empresas que conseguirem combinar inovação com governança, segurança e controle poderão obter os benefícios da IA sem transformar produtividade em exposição.
Sua empresa sabe como a Inteligência Artificial está sendo utilizada?
A InfoSolut Tecnologia pode avaliar o ambiente de TI da sua empresa, identificar riscos relacionados a acesso, proteção de dados, infraestrutura e uso de ferramentas não homologadas, além de apoiar na definição de políticas e controles para uma utilização mais segura da tecnologia.
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